Há 50 anos, a estilista Zuzu Angel foi vítima de um atentado forjado como acidente no Rio de Janeiro, um evento que silenciou uma das vozes mais ativas contra a ditadura militar brasileira. Aos 53 anos, ela buscava incessantemente por seu filho, Stuart Edgard Angel, militante do MR8, que foi preso, torturado e morto em 1971 nas dependências do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa).
A Maternidade Como Arma Política
Segundo a historiadora Cristina Scheibe Wolff, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a jornada de Zuzu Angel integra um movimento mais amplo de mães que transformaram a dor em ação durante as ditaduras sul-americanas, tendo as Mães da Praça de Maio, na Argentina, como um de seus exemplos mais emblemáticos. A maternidade foi mobilizada como linguagem política para sensibilizar a opinião pública e expor a violência dos regimes.
Wolff explica que essa estratégia dialogava com padrões de gênero da época, amplamente aceitos, inclusive pelos próprios agentes da ditadura, que viam as mulheres a partir do lugar da maternidade. Assim, mães de desaparecidos apresentavam uma imagem mais humanizada de pessoas que o regime considerava 'bandidas e terroristas'.
A historiadora complementa que esses movimentos foram cruciais para enfraquecer as ditaduras na América do Sul, tornando-as menos simpáticas ao grande público. Essa abordagem se mostrou mais efetiva do que a luta armada, que foi suprimida no Brasil na década de 1970, ao direcionar a atenção para o lado perverso da ditadura militar.
Gênero e Resistência Contra o Regime
Cristina Scheibe Wolff destaca que o gênero não foi um aspecto secundário, mas um elemento central na forma como a resistência foi construída e comunicada no Cone Sul (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia) entre os anos 1960 e 1970. Enquanto as organizações armadas empregavam discursos associados à masculinidade, valorizando coragem, força, ação e sacrifício, os movimentos de direitos humanos e de familiares utilizavam um discurso associado à feminilidade, mobilizando emoção, dor e sensibilidade.
No caso de Zuzu Angel, sua posição como estilista famosa e suas articulações internacionais ampliaram ainda mais o alcance de suas denúncias.
Hildegard Angel, jornalista e filha de Zuzu, recorda o destemor atípico da mãe em um período marcado pelo silêncio e o medo. 'Ela fez um trabalho de sensibilização falando do filho com aquele carinho maternal e teve solidariedade de outras mães que estavam em situações semelhantes', afirma. Hildegard ressalta que Zuzu desafiou os governos de Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, enfrentando dois regimes totalitários e pagando um alto preço por sua ousadia.
O Legado de Luta de Zuzu Angel
Zuleika de Souza Netto, nascida em Curvelo, Minas Gerais, em 1921, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1939, onde construiu sua carreira de estilista entre 1940 e 1970. Suas criações, que mesclavam elementos da cultura brasileira como rendas, bordados e pedrarias, com modelagens simples e contemporâneas, alcançaram reconhecimento internacional.
Após o desaparecimento de seu filho mais velho, Stuart Angel, que ingressou na resistência armada, Zuzu expandiu suas denúncias para além das fronteiras brasileiras. Ela buscou apoio nos Estados Unidos e em organismos internacionais, incluindo contatos frequentes com o então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, e mobilizou jornalistas estrangeiros para expor as violações de direitos humanos no Brasil, em um período de forte censura interna.
Uma característica marcante da luta de Zuzu foi o uso da moda como forma de protesto. Ela passou a inserir símbolos de denúncia em suas coleções, com referências à violência e à repressão, transformando seus desfiles em manifestações políticas. Bordados de anjos feridos, figuras de crianças mortas, tanques de guerra e pássaros em gaiolas foram utilizados para ilustrar sua resistência.









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