Não basta recomendar a prática de exercícios físicos. É necessário ajudar as pessoas a encontrarem uma forma personalizada e duradoura de incorporá-los à rotina, como se faz com qualquer outro tipo de tratamento. A opinião é dos autores de um artigo publicado nesta terça-feira, 3, na revista científica Brain Health.
Com revisão por pares, a publicação reúne dados robustos que mostram os benefícios do movimento para o cérebro, incluindo áreas como cognição, humor, sono, motivação, funcionamento social e resiliência.
“Infelizmente, na prática clínica, o exercício físico é frequentemente tratado como uma simples recomendação de estilo de vida, em vez de uma intervenção estruturada que pode contribuir para a prevenção, o tratamento e a recuperação de distúrbios relacionados ao cérebro”, afirmam os pesquisadores.
O artigo é assinado por Carl Zhou e Nicholas Fabiano, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Ottawa, e Stanley Wong, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Toronto, ambos no Canadá.
Para eles, a atividade física deve ser considerada “um componente do cuidado com a saúde cerebral“, lado a lado com intervenções como o uso de medicamentos, a psicoterapia, a estimulação cerebral, a otimização do sono e intervenções sociais.
Chefe do Serviço de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Moinhos de Vento, referência nacional em neurologia, o médico Gregory Saraiva Medeiros afirma que concorda com a reflexão dos autores.
“O artigo não apresenta uma descoberta inédita, mas reúne e discute conhecimentos científicos já disponíveis sobre os benefícios da atividade física para a saúde do cérebro”, diz. “Há muito tempo, nós, médicos, recomendamos que nossos pacientes pratiquem exercícios”.
No entanto, diz ele, essa orientação ainda é feita, muitas vezes, de maneira genérica. “O que o artigo propõe é que a atividade física passe a fazer parte do planejamento do tratamento, com orientações mais claras e acompanhamento adequado”, resume.
“Eixo músculo-cérebro”
O texto explica que a função cerebral depende da integridade dos vasos sanguíneos, da regulação metabólica, do equilíbrio inflamatório e da neuroplasticidade.
O que o exercício físico faz é influenciar justamente esses sistemas, por meio de melhorias nas funções cardiorrespiratória e cerebrovascular, e alterações em fatores envolvidos na plasticidade do cérebro e na aprendizagem, por exemplo.
Os autores mencionam o chamado “eixo músculo-cérebro“, uma das várias vias que ligam o exercício à saúde cerebral. O que acontece é que, durante a contração muscular, especialmente no exercício físico e treino de força, o músculo secreta proteínas chamadas miocinas e outras moléculas na corrente sanguínea.
Uma delas é o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que funciona como um “fertilizante” cerebral, estimulando a neuroplasticidade, a memória e a proteção dos neurônios. As moléculas liberadas também interagem com vias metabólicas relevantes para o humor e a cognição.
O estudo histórico de referência na área é um ensaio clínico randomizado com idosos, publicado em 2011 na revista científica PNAS, no qual o exercício aeróbico aumentou o volume do hipocampo anterior, uma região central para a memória, e melhorou a própria memória.
Os pesquisadores afirmam que essas descobertas estão de acordo com evidências mais amplas que relacionam a atividade física a melhorias na cognição, função executiva e envelhecimento cerebral, embora algumas dessas pesquisas sejam observacionais e não estabeleçam uma relação de causa e efeito.
Efeitos na saúde mental e no envelhecimento
Os benefícios do exercício físico para a saúde mental são um dos principais exemplos do papel do movimento no cérebro. O texto aponta que, em diversas populações, evidências robustas indicam que intervenções com atividade física podem reduzir sintomas de depressão e ansiedade, além de sofrimento psicológico e desfechos relacionados ao suicídio.
Uma metanálise em rede de ensaios randomizados de 2024 constatou que exercícios como caminhada, corrida, ioga e treinamento de força reduziram os sintomas de depressão, com efeitos maiores geralmente observados em intensidades mais elevadas.
No entanto, apontam os autores, há uma boa notícia para quem não consegue fazer treinos longos e intensos: estudos que avaliaram diferentes doses de exercícios apontam que os benefícios podem ocorrer mesmo abaixo das metas recomendadas pelas diretrizes, com aproximadamente metade do volume recomendado pela saúde pública, cerca de 75 minutos por semana de atividade moderada.
“Isso fornece um ponto de partida útil para pacientes que têm dificuldade em atingir as recomendações completas”, diz o artigo.
Já no que diz respeito ao envelhecimento cognitivo, a atividade física tem sido associada a menor risco de comprometimento cognitivo, demência por todas as causas e doença de Alzheimer. Não à toa, a Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui o exercício em suas recomendações para a redução do risco de demência.
“Quando falamos de memória e de doenças como o Alzheimer, os resultados são animadores, mas precisam ser interpretados com cuidado“, pondera Medeiros.
“Estudos mostram que pessoas fisicamente ativas apresentam menor risco de desenvolver problemas de memória e demência. Isso, porém, não significa que esteja comprovado que o exercício, sozinho, consiga prevenir essas doenças”, explica.
Os autores também citam evidências que sugerem que o exercício aeróbico pode melhorar a cognição global em pessoas com esquizofrenia, com possíveis benefícios na memória de trabalho, atenção e cognição social.
Embora os dados sejam baseados em estudos com amostras menores, eles apontam que a descoberta é “clinicamente relevante”, já que o comprometimento cognitivo influencia fortemente a qualidade de vida de quem tem o transtorno, e a maioria dos tratamentos farmacológicos disponíveis tem efeitos limitados sobre a cognição.
Como a prescrição deve ser feita
Para os autores do artigo, a prescrição de exercícios deve ser detalhada e específica, semelhante às prescrições para outros tipos de tratamento, como os medicamentos.
“Uma prescrição útil inclui o tipo de atividade, frequência, intensidade, tempo (duração), considerações de segurança, barreiras e plano de acompanhamento”, sugerem.
A OMS recomenda que adultos realizem de 150 a 300 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada por semana, ou de 75 a 150 minutos de atividade física aeróbica de intensidade vigorosa por semana, com atividades de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana.
A atividade de intensidade moderada pode ser definida como aquela que eleva consideravelmente a frequência cardíaca, mas permanece sustentável, como uma caminhada rápida. Já a atividade de intensidade vigorosa causa falta de ar mais acentuada, como corrida ou ciclismo em alta velocidade.

Para promover a adesão, diz o artigo, as recomendações de exercícios devem ser individualizadas de acordo com o condicionamento físico inicial da pessoa, a gravidade dos sintomas, as comorbidades médicas, a preferência e o acesso.
A segurança é outro fator que deve ser levado em conta, segundo os especialistas. Pacientes frágeis, com sintomas cardíacos ou respiratórios instáveis, quedas recentes, infecção aguda, dor não controlada ou outra instabilidade médica podem precisar de avaliação médica, intervenção fisioterapêutica, programação supervisionada ou adiamento temporário antes de aumentar a atividade.
“Para a maioria dos pacientes, uma abordagem gradual é apropriada: comece com uma atividade de baixo risco, aumente o volume ou a intensidade gradualmente, monitore os sintomas e revise o plano se ocorrer dor, tontura, sintomas torácicos, falta de ar acentuada ou declínio funcional”, recomendam os autores.
Comorbidades e acesso devem ser levados em conta
Eles destacam que um treino personalizado é especialmente importante em pessoas com comorbidades.
“Por exemplo, a depressão pode reduzir a energia, a motivação, a concentração e a função executiva, o que pode dificultar o início de um programa de exercícios”, dizem, acrescentando ainda que fatores como ansiedade, psicose, dor crônica, deficiência, pobreza, demandas de cuidado e ambientes inseguros também podem limitar a participação em atividades físicas.
“A prescrição eficaz de exercícios, portanto, requer o estabelecimento colaborativo de metas, início gradual, acompanhamento regular e atenção às barreiras entre o profissional de saúde e o paciente”, diz o artigo.
Para alguns pacientes, o ponto de partida sugerido é uma caminhada leve de 5 minutos, exercícios na cadeira, encaminhamento para fisioterapia, exercícios em grupo supervisionados ou atividades já incorporadas à rotina diária, como passear com o cachorro. Pequenos sucessos repetidos podem construir autoeficácia e hábito, criando assim as condições para a atividade a longo prazo, afirmam.
Por fim, eles defendem que, idealmente, o exercício físico também deve ser incorporado aos sistemas de saúde.
Durante uma consulta de rotina, os profissionais de saúde podem, por exemplo, documentar o comportamento sedentário, colaborar com a atenção primária e a fisioterapia, encaminhar os pacientes para programas comunitários e monitorar alterações no humor, cognição, sono, risco metabólico e qualidade de vida.
Já para pessoas socialmente isoladas ou com dificuldades de motivação, o movimento pode ser incentivado por meio de atividades em grupo, caminhada assistida e abordagens com auxílio de animais.
Sugerem ainda medidas concretas de equidade, como o financiamento do governo a programas comunitários de exercícios, apoio ao transporte, encaminhamento para fisioterapia ou grupos supervisionados e parcerias com centros de recreação. “É importante reconhecer que prescrever exercícios sem abordar a questão do acesso pode ampliar as desigualdades”.
Na prática, incluir a atividade física na prescrição médica significa ir além de simplesmente dizer ao paciente que ele precisa se exercitar. É importante definir quais atividades são mais adequadas, com que frequência e intensidade devem ser realizadas e como adaptá-las às condições de saúde e à rotina de cada pessoa.
“É importante lembrar que a atividade física não substitui medicamentos ou outros tratamentos, mas pode ser uma aliada importante na prevenção e no cuidado de diversas doenças”, pondera Medeiros.
Fonte: Abril










/https://s02.video.glbimg.com/x720/14686805.jpg)




