Um artista pode passar meses produzindo uma obra, encontrar um comprador e, ainda assim, não saber se ganhou ou perdeu dinheiro com a venda. A dificuldade de calcular custos, estabelecer preços e administrar a própria carreira é um dos problemas que a recém-inaugurada galeria Ewbank & CO, em São Paulo, pretende enfrentar. Fundada pelo artista plástico Gian Luca Ewbank e pela empresária Lucy Petrucelli, com direção curatorial de Roberto Bertani, a empresa quer funcionar como uma espécie de aceleradora de artistas, tomando emprestadas do universo das startups práticas de planejamento, gestão e desenvolvimento de negócios.
A proposta é substituir a relação tradicional entre galerista e artista, frequentemente concentrada na exposição e comercialização de obras, por um acompanhamento individualizado. Bertani pretende elaborar planos de carreira para cada profissional representado, com metas de desenvolvimento, formação técnica, construção de relacionamentos e posicionamento no mercado. Dependendo dos objetivos do artista, isso poderá envolver desde aulas de inglês até orientação para participar de exposições e ampliar sua circulação internacional. “Não é o plano de carreira da galeria, é deles”, afirma o curador, que pretende realizar encontros semanais de orientação.
Um dos pilares do modelo é ensinar os artistas a tratar a própria produção como uma atividade econômica sustentável. Bertani argumenta que muitos profissionais não sabem calcular quanto custa produzir uma obra, porque deixam de considerar despesas com materiais, horas de pesquisa e tempo de trabalho. Sem essa conta, acabam estabelecendo preços de maneira intuitiva, muitas vezes pressionados pela necessidade de pagar as contas. A orientação inclui calcular custos, estimar a remuneração pelo trabalho e compreender como fatores como demanda, reconhecimento e escassez influenciam o valor final de uma peça. A ideia não é transformar a precificação em uma fórmula automática, mas dar ao artista instrumentos para negociar sem comprometer sua sustentabilidade financeira.
A estrutura também inclui serviços normalmente associados à gestão de marcas e carreiras. A galeria contratou dois estagiários de jornalismo para auxiliar os artistas na produção de textos, fotografias, vídeos e conteúdo para redes sociais. O objetivo é organizar portfólios, documentar processos criativos e melhorar a apresentação dos trabalhos a potenciais compradores. Na área financeira, a proposta é oferecer um sistema pelo qual cada artista possa acompanhar suas vendas, valores a receber e condições de pagamento. Lucy Petrucelli, responsável pela administração do negócio, também procura limitar os parcelamentos, em geral, a três meses, para evitar que o artista demore excessivamente a receber por uma obra cujo custo de produção já desembolsou.
O desafio será conciliar essa estrutura de apoio com a necessidade de gerar receita. Aberta em 27 de outubro, a Ewbank & CO foi montada com recursos próprios, sem investidores externos, segundo os fundadores. Nos primeiros três dias de apresentações e eventos, a galeria comercializou cerca de 18 obras, resultado que superou as expectativas iniciais dos sócios. Ainda assim, o desempenho de uma inauguração não garante a sustentabilidade da operação. A expectativa é que o funcionamento regular ao longo de 2027 permita avaliar melhor o comportamento das vendas e o custo do modelo de acompanhamento dos artistas.
Para diversificar as atividades e atrair potenciais compradores, a empresa pretende promover workshops, experiências gastronômicas e projetos com marcas, além das exposições tradicionais. A meta inicial é realizar ao menos duas oficinas por mês, aproximando artistas, clientes e empresas. Os fundadores relatam conversas preliminares com possíveis parceiros comerciais, entre eles Nespresso e BTG Pactual, mas não anunciaram contratos. A programação prevê uma exposição de obras em pequenos formatos em dezembro e a primeira mostra individual da galeria para o fim de fevereiro de 2027.
Existe, porém, uma condição central no projeto: profissionalizar o artista sem transformá-lo em uma linha de produção. Bertani critica o funcionamento de galerias que, em sua avaliação, acabam direcionando o trabalho de seus representados para aquilo que vende mais facilmente. A Ewbank & CO pretende seguir a lógica inversa, preservando a liberdade de criação e oferecendo suporte para que cada artista desenvolva sua linguagem e encontre espaço no mercado. É uma aposta que coloca a galeria diante de um desafio conhecido no mundo empresarial: investir no crescimento de seus talentos sem perder de vista a rentabilidade do negócio.
Fonte: Abril







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