O Atlas da Mobilidade Social, uma plataforma pública desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) em parceria com o Prospera Lab, aponta que gênero, raça e origem familiar são os principais fatores que limitam a ascensão socioeconômica no Brasil, conforme dados divulgados recentemente.
Desigualdades por Raça e Gênero
O levantamento demonstra que, entre jovens brancos oriundos dos 25% mais pobres da distribuição de renda, 36,3% permanecem nesse grupo na vida adulta. Para os não brancos, essa probabilidade eleva-se significativamente para 51,6%, evidenciando o impacto racial como um condicionante maior.
A questão de gênero também é marcante: 65,1% das mulheres filhas de pais situados nos 25% mais pobres permanecem nesse mesmo estrato de renda, em contraste com 32,9% dos homens. Essa disparidade se acentua para mulheres não brancas, onde 69% continuam entre os 25% mais pobres, comparado a 52,9% das mulheres brancas.
A Influência da Origem Familiar
O estudo revela que filhos de pais nos 25% mais pobres têm 48% de chance de permanecer nesse mesmo grupo na vida adulta. As oportunidades de romper esse ciclo são reduzidas, com apenas 8,32% conseguindo alcançar o grupo dos 25% mais ricos e somente 1,28% atingindo o estrato dos 10% com maior renda do país.
Para quem nasce em famílias de maior renda, a situação é distinta. Jovens cujos pais pertenciam aos 25% mais ricos têm 56,5% de probabilidade de permanecer nesse mesmo estrato quando adultos, e 30,8% chegam ao grupo dos 10% mais ricos. Aqueles da faixa intermediária (26% a 75% dos mais ricos) têm 17,5% de chance de alcançar os 25% mais ricos na vida adulta.
Persistência Geracional da Hierarquia
A hierarquia de oportunidades mostra-se resiliente ao longo do tempo. Ao comparar gerações nascidas entre 1983-1987 e 1988-1990, os dados indicam que, apesar de um pequeno aumento, a possibilidade de ascensão social dos filhos permanece similar à dos pais.
Para filhos de pais nos 25% mais pobres, a probabilidade de ascender aos 25% mais ricos subiu marginalmente de 7,9% para 8,8% entre as duas gerações analisadas. O cenário se repete entre os filhos de famílias de renda média, cuja chance de ascensão aos 25% mais ricos variou de 16,6% para 18,6%, reforçando a persistência da baixa mobilidade social.
Variações Regionais no Brasil
O Atlas analisou as chances de ascensão social de jovens oriundos de famílias de baixa renda nas diferentes regiões do país. As maiores probabilidades de mobilidade concentram-se no Sul, Sudeste e em partes do Centro-Oeste. Em contraste, grande parte do Norte e Nordeste apresenta as menores taxas, revelando territórios onde a pobreza tende a ser mais persistente entre gerações.
Os contrastes entre municípios são notáveis: em Assis Brasil (AC), 84,4% dos jovens de famílias nos 25% mais pobres permanecem nesse grupo de renda na vida adulta, um dos piores resultados nacionais. Já em Ponte Serrada (SC), apenas 2,13% dos jovens permanecem nesse estrato, evidenciando ambientes muito mais favoráveis à ascensão socioeconômica.
O Papel Fundamental da Educação
Entre os indicadores socioeconômicos incorporados ao Atlas, a educação emergiu como a dimensão mais fortemente associada à mobilidade social. Municípios com melhores indicadores educacionais, como maior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e menor distorção idade-série, tendem a apresentar maiores chances de mobilidade ascendente.
Paulo Tafner, presidente do Imds, destacou que 'a mobilidade social depende da capacidade de reduzir as desigualdades de origem'. Ele enfatiza que políticas educacionais são fundamentais, mas precisam ser acompanhadas de estratégias econômicas capazes de ampliar oportunidades ao longo da vida para promover a ascensão social eficazmente.
Base Metodológica
As estimativas e dados apresentados no Atlas da Mobilidade Social têm como base a metodologia desenvolvida no artigo acadêmico 'Intergenerational Mobility in the Land of Inequality' (Britto et al., 2025).









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