No coração da Amazônia, a gestante Aldeniza Silva e Silva, moradora da comunidade ribeirinha de Boa Vista, em Carauari (AM), enfrentava uma realidade comum a milhares: a dificuldade extrema de acesso a serviços de saúde. Para realizar o pré-natal de seu quinto filho, ela precisava se deslocar por dias em pequenas embarcações até a zona urbana do município, um trajeto que variava de dois a três dias. Essa jornada, muitas vezes inviável, resultou em apenas três consultas de pré-natal, muito abaixo das seis recomendadas pelo Ministério da Saúde.
A distância e a logística fluvial, que pode ser dispendiosa e demorada, são barreiras diárias para os cerca de 28 mil habitantes de Carauari. A vasta área rural do município, localizada a mais de 1,6 mil quilômetros fluviais da capital Manaus, é composta por dezenas de comunidades isoladas, onde a navegação é o único meio de transporte. Maria Valkiane Freitas e Silva, da comunidade de Bauana, compartilhava dessa rotina árdua, descrevendo viagens de até 12 horas de rabeta e custos elevados para buscar atendimento médico na cidade.
A Solução: Pontos de Atendimento e o 'SUS na Floresta'
A realidade de isolamento e carência de serviços de saúde começa a ser transformada com a recente inauguração de dois pontos de atendimento médico nas bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) nas regiões de Campina e Bauana. Essa iniciativa, batizada de 'SUS na Floresta', encurtou drasticamente as distâncias para os ribeirinhos, oferecendo cuidado essencial mais próximo das comunidades.
Para Aldeniza, a novidade significa que a 'distância é só de uma praia', permitindo que ela continue seu pré-natal no posto de Campina e leve a filha de seis anos para uma consulta. A comunidade de São Francisco, próxima à unidade de Campina, já demonstrava entusiasmo com a possibilidade de atendimento médico mais acessível, contrastando com experiências passadas de emergências sem socorro a tempo, como relatou Cecilia Bispo, que chegou a adoecer gravemente em uma viagem.
Estrutura e Parceria Público-Privada
Os novos pontos de atendimento representam uma solução inovadora, adaptada à realidade amazônica, focada no apoio às equipes de saúde. Cada unidade é equipada para oferecer atendimento presencial e remoto através da telessaúde, contando com consultórios, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet e áreas de permanência para as equipes de saúde.
O modelo do 'SUS na Floresta' é fruto de um edital do programa 'Juntos pela Saúde' e é executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umame. A gestão é do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), com apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas.
Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, explica que um princípio fundamental do projeto é fortalecer e integrar-se ao Sistema Único de Saúde (SUS), e não criar uma estrutura paralela. Os pontos de atendimento são implantados em colaboração com as prefeituras e secretarias municipais de Saúde, e os profissionais que atuam neles são parte da rede pública e da Estratégia Saúde da Família, garantindo a sustentabilidade e a integração do serviço.










/https://s02.video.glbimg.com/x720/14686805.jpg)









