Vinte e cinco anos após seu falecimento, o legado de Milton Santos está sendo revisitado a partir de um vasto acervo depositado no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP). Com aproximadamente 60 mil itens, as pesquisas recentes têm trazido à tona aspectos pouco conhecidos do renomado geógrafo e pensador negro.
Novas Perspectivas de Pesquisa Impulsionadas por Cotas Raciais
A implementação das cotas raciais nas universidades brasileiras fomentou uma nova geração de estudantes a exigir uma reformulação nas pesquisas sobre a contribuição de intelectuais negros. Maurício Costa, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e pesquisador de Milton Santos, aponta que esse movimento expandiu os estudos para além da geografia e globalização, tradicionais temas associados a ele.
As investigações atuais exploram a relação de Santos com a política, o movimento negro, as periferias e seu período em países africanos. Costa enfatiza que o pensador escreveu sobre o continente africano em um momento de escassa produção sobre o tema no Brasil, especialmente por alguém que o havia visitado, revelando facetas inéditas de sua obra.
Pioneirismo nas Questões Raciais e Atuação Política
Maurício Costa destaca Milton Santos como um dos primeiros pensadores brasileiros a ler e discutir a obra de Frantz Fanon, uma figura central para diversos movimentos negros. Ele também abordou questões raciais em seus primeiros livros, como 'O Povoamento da Bahia', e em 'Marianne em Preto e Branco', um relato de viagem à África que explora o tema racial.
Após o exílio nos anos 1970, a atuação de Milton Santos tornou-se mais politizada. Sua obra 'Espaço do Cidadão', por exemplo, foi concebida para intervir no debate da Constituição de 1988, questionando a inclusão do território na formulação política.
Milton Santos e o Movimento Negro: Desmistificando a Militância
Sérgio Henrique de Oliveira, professor da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), afirma que as novas pesquisas desconstroem o mito de que Milton Santos não foi um militante do movimento negro. As descobertas indicam uma forma de militância distinta da tradicional, manifestada pela elaboração de ideias e participação em debates sobre a exclusão do negro, tanto no Brasil quanto globalmente.
A experiência de Santos na Bahia e em países africanos reforça essa visão de sua participação como intelectual engajado. Oliveira complementa que, além do 'Milton negro', pouco estudado, existe também um 'Milton social' que forneceu uma base teórica crucial sobre território, periferia e direitos, elementos fundamentais para os movimentos sociais.









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