No Brasil, apesar de as mulheres formarem a maioria dos doutores há mais de duas décadas, elas ainda são minoria em cargos de docência superior e recebem apenas um terço das bolsas de produtividade acadêmica. Esse fenômeno, conhecido como 'efeito tesoura', descreve o declínio progressivo da participação feminina em etapas avançadas da carreira científica, com um impacto ainda mais pronunciado sobre as mães, cuja discussão se intensificou nos últimos anos.
A pesquisadora Fernanda Staniscuaski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, experimentou essa realidade ao se tornar mãe, precisando pausar sua ascensão profissional. Essa desaceleração, que se estendeu além do esperado, revelou um ciclo vicioso: menos produção leva a menos oportunidades de financiamento e bolsas, perpetuando a dificuldade de retorno. "Existe essa pausa por causa da maternidade e ela tem que ser reconhecida. Mas a gente precisa das condições de retorno", afirma.
Parents in Science: Combatendo a Sub-representação Materna
Em 2016, Fernanda Staniscuaski, junto a outras mães e um pai cientista, fundou o movimento Parents in Science. A iniciativa, que celebra dez anos, conta com mais de 90 pesquisadores associados, majoritariamente mulheres, dedicados a debater a parentalidade no ambiente acadêmico. Um dos pilares do movimento é preencher a lacuna de dados oficiais sobre pesquisadores com filhos no Brasil, um levantamento crucial para quantificar o impacto da maternidade na carreira.
O Parents in Science destaca que o cuidado com os filhos onera mulheres e homens de maneiras distintas, refletindo os padrões desiguais da sociedade. Fernanda Staniscuaski ressalta que, embora haja uma evolução cultural com maior participação paterna, o cuidado ainda não é totalmente dividido ou visto como uma responsabilidade coletiva, com as mães arcando com a maior parte do ônus.
Dificuldades de Permanência e Reintegração na Academia
Um relatório recente do Parents in Science, analisando a entrada e permanência na docência de pós-graduação, revelou disparidades significativas. O levantamento, baseado em dados de cerca de mil docentes, aponta que entre os pais que deixaram seus programas, 43,7% o fizeram por iniciativa própria e 37,5% por perda de produtividade. Para as mães, os números se invertem: apenas 24,6% saíram por vontade própria, enquanto 66,1% foram descredenciadas por não atenderem à produção mínima exigida.
A reinserção no sistema acadêmico também é mais árdua para as mães. Das pesquisadoras descredenciadas por baixa produtividade, 38% não conseguiram retornar, em contraste com 25% dos pais. No grupo que saiu por iniciativa própria, 25% das mães não retornaram, comparado a apenas 7,1% dos pais, evidenciando uma barreira maior para o retorno feminino.
Desafios Interseccionais e Obstáculos Iniciais
A problemática de gênero na ciência é agravada por outras dimensões, como a raça, onde mulheres pretas, pardas e indígenas permanecem o grupo mais sub-representado. Mães de filhos com deficiência também enfrentam obstáculos adicionais que limitam sua presença no ambiente acadêmico, reforçando a necessidade de abordagens que considerem as múltiplas barreiras existentes.
Os desafios para mães na academia não se limitam às fases avançadas da carreira. A assistente social Cristiane Derne, atualmente mestranda em Serviço Social, já era mãe ao iniciar a graduação e enfrentou dificuldades desde então, ilustrando como as barreiras podem surgir em qualquer etapa do percurso educacional e profissional.









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