Organizações e coletivos de São Paulo realizaram a 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais neste sábado (6). O evento buscou fortalecer reivindicações específicas e visibilizar as violências concretas e simbólicas enfrentadas por essa comunidade, que se manifestam de formas distintas do restante da comunidade LGBTQIA+.
A articulação contou com a participação de grupos como a Coletiva da Visibilidade Lésbica SP, a Rede LésBi Brasil, Lésbicas na Parada SP, a Rede Nacional Candaces de Lésbicas e Mulheres Bissexuais Negras Feministas, e a Associação Brasileira de Lésbicas (ABL), entre outros.
O Legado de Luana Barbosa dos Reis e a Luta por Justiça
Neste ano, um dos motes do protesto foi o aniversário de dez anos do assassinato de Luana Barbosa dos Reis. Lésbica, negra e periférica, Luana foi vítima de letalidade policial aos 34 anos, um caso que reforça o peso da lesbofobia e da bifobia no Brasil e a necessidade de se descolar de grandes financiadores.
Familiares e movimentos sociais denunciam que Luana foi abordada e espancada até a morte por policiais militares em Ribeirão Preto (SP), após recusar uma revista feita por agentes masculinos, um direito assegurado por lei que lhe foi negado. Até o momento, os policiais envolvidos não foram responsabilizados.
Em reconhecimento à sua memória e luta, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania criou o Prêmio Luana Barbosa dos Reis, destinado a iniciativas voltadas a mulheres homossexuais e ao enfrentamento do lesbocídio e da lesbofobia.
Roseli dos Reis, irmã de Luana, desabafou durante o ato sobre a dor do luto interrompido pela busca incessante por justiça. “São dez anos sem resposta”, lamentou, pedindo celeridade na resolução do caso e agradecendo à imprensa independente pela cobertura.
Enfrentamento à Discriminação e Violência Estrutural
Lideranças presentes na concentração em frente ao MASP destacaram que o avanço da ultradireita brasileira representa um agravamento das perseguições contra mulheres lésbicas e bissexuais, por desviarem-se dos padrões impostos pela sociedade heteronormativa e patriarcal.
Segundo a edição mais recente do LesboCenso, a lista de agressões é vasta, materializando-se em discriminação em espaços públicos, invisibilidade de relacionamentos, violência verbal, isolamento e assédio sexual. Esses atos refletem o ódio e a aversão direcionados a elas.
A violência contra mulheres lésbicas e bissexuais também inclui a objetificação e, em casos extremos, o estupro corretivo, práticas que evidenciam a profundidade da misoginia e da homofobia/bifobia.
Invisibilidade e Desafios no Cotidiano: O Testemunho de Helena Silva
Helena Silva, fotógrafa e modelo de 26 anos, se identifica como pansexual. Ela relata vivenciar a invisibilidade, um desafio comum a pessoas bissexuais e outras identidades que não se encaixam nas categorias de heterossexualidade ou homossexualidade.
Historicamente, o grupo bissexual utiliza a figura do unicórnio como alegoria para expressar o desdém e os estereótipos associados à sua suposta indecisão na preferência por relacionamentos, destacando a marginalização de suas experiências.
Negra e moradora da periferia de São Paulo, Helena cresceu em uma família evangélica. Apesar do respeito de sua mãe, ela não se sente à vontade para compartilhar abertamente suas experiências românticas e sexuais em casa, como seu relacionamento atual com a tatuadora Thais Souza.
A busca por informações sobre saúde ginecológica e sexual, que deveria ser um tema tratado com naturalidade na família e na escola, precisou ser feita com amigos que não a julgavam, devido à percepção de tabu em outros ambientes.
O descaso em consultórios médicos com pacientes bissexuais e lésbicas é uma realidade, com desinformação e má conduta frequentemente resultando em um baixo nível de qualidade nos atendimentos de saúde.
Sobre a visão de sua mãe, Helena comenta: "Ela vem desse pensamento de família tradicional, de homem e mulher constituindo uma família. Não vou julgar essa forma dela, porque veio da criação dela. Mas também não muda o fato de que eu tenho minha preferência, sim, nem o de que sou filha dela."









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