A ativista e pesquisadora Angela Davis foi um dos destaques da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), participando de um evento público e gratuito no Sesc Caborê. Sua conversa com a jornalista Flávia Oliveira integrou a programação paralela da Festa, ocorrida no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, também celebrado como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.
Durante o encontro, Angela Davis evocou a presença ancestral em Paraty, ressaltando o papel fundamental de seus antepassados no período da escravização. Ela sublinhou a dimensão cultural intrínseca à luta pela liberdade do movimento negro, destacando como a música, a arte e a literatura permitem alcançar compreensões profundas.
Denúncia de Gentrificação e Racismo Ambiental em Paraty
A ativista denunciou veementemente a gentrificação e o racismo ambiental que afetam as comunidades pobres de Paraty. Ela explicou que a gentrificação, processo de valorização de um bairro que eleva o custo de vida e expulsa moradores de baixa renda, está forçando a saída de pessoas de suas terras ancestrais, gerando lucros para poucos em detrimento da comunidade local. Davis expressou a preocupação dos jovens com o meio ambiente e o futuro do planeta, criticando a exploração desmedida.
Reconhecimento de Pensadoras Negras Brasileiras
Angela Davis manifestou alegria por participar da mesa de conversa, embora lamentando a ausência de Wole Soyinka por motivos de saúde. A ativista agradeceu a presença da escritora mineira Conceição Evaristo na plateia, a quem considera no mesmo patamar de relevância de figuras como Nina Simone e Toni Morrison, ambas norte-americanas.
O Conceito da 'Escrevivência' de Conceição Evaristo
Ao discorrer sobre a 'escrevivência', conceito literário criado por Conceição Evaristo, Davis enfatizou a longa jornada para o reconhecimento da necessidade de pessoas negras contarem e compartilharem suas próprias histórias. Ela citou Toni Morrison para reforçar que a experiência branca não pode ser considerada universal.
A Contribuição de Beatriz Nascimento e o 'Eu Sou Atlântica'
Mediando a conversa, Flávia Oliveira introduziu nomes de pesquisadores e ativistas, levando Angela Davis a comentar as contribuições da brasileira Beatriz Nascimento. Davis destacou a frase de Nascimento 'eu sou atlântica' como um sentimento que conecta a todos, proporcionando um senso de pertencimento a um mundo vasto. Ela relacionou essa ideia à sua própria 'primeira iluminação' internacionalista, quando encontrou solidariedade com os argelinos na França, percebendo-se parte de algo maior.
Lélia Gonzalez e a 'Amefricanidade' como Crítica ao Capitalismo
Angela Davis também expressou sua admiração por Lélia Gonzalez, autora e ativista brasileira, referência nos estudos de gênero, raça e classe. Ela destacou o conceito da 'Amefricanidade' de Gonzalez, que reconhece a inseparabilidade da luta negra e da luta dos povos indígenas em qualquer parte do mundo. Davis concluiu apontando Lélia Gonzalez como uma crítica fundamental do capitalismo, especialmente relevante na era dos trilionários que priorizam o lucro em detrimento do planeta.









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