Quando começaram a circular na manhã de ontem, 5, as primeiras notícias de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniria com economistas de fora do governo para fazer um diagnóstico da situação fiscal do país e avaliar eventuais medidas de ajuste, os operadores da avenida Faria Lima – o coração financeiro do Brasil – tiveram a esperança de que Lula estaria disposto a sair de sua bolha e escutar duras verdades. A expectativa levou, inclusive, a uma leve alta do Ibovespa, o principal índice da bolsa, nas primeiras horas de pregão. À medida que o mercado tomou conhecimento dos convidados para o encontro que aconteceu na tarde de ontem, porém, o ânimo esfriou, a ponto de o Ibovespa inverter a trajetória e encerrar em queda de 0,82%.
A avaliação é que Lula perdeu uma grande oportunidade de sentir o pulso da economia e do mercado financeiro ao se reunir com pessoas que apenas endossam a conhecida aversão petista à disciplina fiscal e ao corte de gastos. Por isso, nesta sexta-feira 6, começou a circular em grupos de whatsapp formados por representantes do mercado uma lista com críticas a cada participante da reunião promovida ontem. Os nomes são acompanhados por um breve currículo e por um parágrafo que relaciona seus pontos de “fricção com o mercado”. A ênfase recai justamente em um ponto comum a todos – a hostilidade mais ou menos explícita quanto ao ajuste fiscal.
Por isso, os investidores estão céticos quanto à declaração dada por Lula, horas depois, de que o Brasil precisa ter “responsabilidade fiscal”. Nunca é demais lembrar que, em setembro, vestindo o figurino de candidato à reeleição, o petista não fez cerimônia para atacar a necessidade de colocar as contas públicas em dia. “É preciso acabar com essa babaquice de fazer superávit primário, de ter controle fiscal”, afirmou em um evento de campanha em Curitiba (PR). Ao checar a lista de convidados para a reunião de ontem, tais palavras ecoaram pelo mercado. Veja, a seguir, os “pontos de fricção” entre os assessores de Lula e o mercado, segundo a lista que circula pelos grupos de whatsapp hoje:
- Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro da Indústria: “Passou a vocalizar ataques diretos à política monetária, classificando os juros do Banco Central como “injustificáveis” e “excessivos”. Defende a volta de subsídios a montadoras, incentivos fiscais setoriais e políticas de conteúdo local (“Nova Indústria Brasil”).”
- Dario Durigan, ministro da Fazenda: “Principal operador da linha de que o ajuste das contas públicas deve vir quase que exclusivamente de aumento de arrecadação e taxações (fundos, apostas, e-commerce), resistindo a cortes de despesas obrigatórias e defendendo metas fiscais flexíveis.”
- Miriam Belchior, ministra-chefe da Casa Civil: “Articuladora da chamada “contabilidade criativa” no governo Dilma (abatimento de obras do PAC da meta primária). Acusava o mercado de “pessimismo infundado” diante da escalada da dívida e inflação em 2013-2014.”
- Bruno Moretti, ministro do Planejamento: “Um dos arquitetos da PEC da Transição (2022). Classificou o antigo Teto de Gastos como “camisa de força ideológica” e é contra desvincular benefícios sociais e pisos de saúde/educação da correção do salário mínimo.”
- Esther Dweck, ministra da Gestão: “Defensora teórica da expansão do gasto público anticíclico; declarou que “gasto público não é o vilão da inflação”. Bloqueou propostas de reforma administrativa que envolvam enxugamento de folha e fim de estabilidade funcional.”
- Aloizio Mercadante, presidente do BNDES: “Peça central da gestão Dilma no abandono das metas fiscais. No BNDES, encerrou as devoluções aceleradas de recursos ao Tesouro e retomou o modelo de crédito estatal direcionado para a indústria.”
- Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda: “Declarou que o mercado financeiro opera em “ansiedade irracional” sobre contas públicas. Teve confrontos públicos com o comando do Banco Central, criticando a taxa Selic e defendendo a recalibragem das metas inflacionárias.”
- Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda: “Principal mentor da “Nova Matriz Econômica” (controle artificial de tarifas de energia e combustíveis, juros subsidiados via Tesouro e desonerações fiscais maciças). Famoso pelas declarações minimizando crises (“marolinha”) e pelo período que levou o Brasil à recessão de 2015-2016 e à perda do grau de investimento.”
- Luciano Coutinho, ex-presidente do BNDES: “Formulador da “Política dos Campeões Nacionais”, irrigada por mais de R$ 400 bilhões do Tesouro Nacional para grandes grupos privados (como JBS, grupo EBX de Eike Batista e empreiteiras). Sustentava que o endividamento do Tesouro para subsidiar o banco não gerava impacto fiscal negativo.”
- Eduardo Moreira, economista do ICL: “Crítico ferrenho da Faria Lima; afirma publicamente que “o mercado financeiro sequestrou o Orçamento público via rentismo da dívida”. Defende a rejeição de regras de austeridade e tetos de gastos.”
- Laura Carvalho, professora da FEA/USP: “Argumenta que a recessão de 2015 foi causada pela tentativa de ajuste fiscal de Dilma (Joaquim Levy) e defende que o investimento estatal deve liderar a economia, inclusive ampliando endividamento em transição climática e infraestrutura.”
Fonte: Abril










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