É possível se dar mal nas urnas por causa da situação econômica, quando esta tem um invejável crescimento, no trimestre que terminou em setembro, de 3,4%? Isso numa economia de 30 trilhões de dólares? Com Donald Trump, tudo é possível.
A explicação mais óbvia é que o espetacular crescimento econômico, baseado no consumo e no aumento do uso de inteligência artificial nas empresas de serviços, não se reflete diretamente no bolso dos americanos comuns, espremidos pelo custo de vida — um problema geral nas sociedades desenvolvidas — e pelo preço do combustível.
Os americanos, grandes produtores e refinadores, são famosamente viciados em gasolina barata — mais barata, inclusive, do que no Brasil. Mesmo com o aumento provocado pela guerra no Irã, um litro de gasolina nos Estados Unidos, pela cotação mais alta, sai por 1,22 dólar, ou 6,53 reais, contra até 6,56 aqui. Compare-se o poder de compra: o salário mensal médio nos Estados Unidos vai até 5 421 dólares (quase trinta mil reais). O brasileiro é de 3 790 reais.
Outros indicadores positivos: caíram os preços de laticínios e os ovos, que praticamente tinham virado uma crise no começo do governo, estão 54% mais baratos. O investimento das empresas (excetuando-se as de construção civil, amarradas pelos juros altos para os padrões americanos, de 4%) foi de 12,7%, com 37,4% na área de equipamentos de processamento de informação — a revolução da IA já chegou.
BOOM DE REAGAN
O PIB de 3,4% é menor apenas do que os 4,5% da China e os 7% da Índia, entre as grandes economias. Na Europa, o panorama é tétrico: a Alemanha teve meros 0,2% e a França, envolta em múltiplas crises, já chegou ao crescimento negativo. O do Brasil, recalculado por um grande banco para 0,5%, é de chorar.
“Os números são gigantescos. Na verdade, o PIB essencial, que mede o consumo mais investimento depois da inflação, está crescendo a uma taxa anual de quase 5%. São números que não vemos desde o inacreditável boom de Reagan nos anos oitenta”, exaltou o trumpista Larry Kudlow.
Mais números positivos: 72 mil novos empregos na indústria manufatureira — aquela que, segundo os prognósticos, ia acabar de vez — e o desemprego mais baixo em 60 anos. Acrescenta Kudlow: “Tivemos, grosso modo, um milhão de empregos desde a posse de Trump, enquanto os empregos no governo federal caíram 328 mil. Em outras palavras, estamos reprivatizando a economia. Em outras palavras, isto é o livre mercado em ação”.
Até o Guardian, bastião do esquerdismo, reconheceu o tamanho impactante do aumento do PIB — numa reportagem, obviamente, cheia de conjunções adversativas. A maior delas: a inflação de 3,7%, o que manterá os juros altos, ao contrário do que quer Trump, como todos os outros governantes do mundo.
TIGRE FEROZ
Os excelentes resultados, insuflados por cortes de impostos, entre outras medidas favoráveis ao crescimento econômico, contrastam com as avaliações negativas de Trump. Pela média das pesquisas, ele tem aprovação de apenas 38,4% e 59,7% de desaprovação. O clima negativo se reflete por todo o Partido Republicano, com a perspectiva quase garantida de que perca a maioria na Câmara e possivelmente também no Senado.
Os democratas já têm bem consolidada a lista de comissões que vão investigar o governo Trump, não estando eliminada a possibilidade de um novo processo de impeachment, embora falte a maioria de dois terços para passar pelo Senado. Ficará Trump acuado, de mãos amarradas, enfraquecido com a perspectiva de já estar em declínio? “Trump não pode ser um pato manco”, escreveu o comentarista Freddy Gray na Spectator. “Ele sempre será um tigre feroz — mais letal quando ameaçado”.
Seja qual for a metáfora, uma nova fase do governo Trump começa amanhã, o que não é nenhuma novidade na política americana. Excetuando-se a situação no Irã, ainda em aberto, as bases do que ele tinha a fazer para incentivar o crescimento econômico já foram lançadas.
Os resultados positivos estão sendo colhidos, mas a tendência do público é não reconhecer isso. Seria uma versão do mediciano “a economia vai bem, mas o povo vai mal”. Trump terá um bocado de motivos para reclamar do povaréu que não reconhece seus números positivos.
Fonte: Abril
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