Durante a sessão extraordinária no Congresso paraguaio em que se define o futuro de Santiago Peña, nesta quinta-feira, 5, o porta-voz da Presidência, Guillermo Grance, declarou publicamente que desconhece o paradeiro atual do mandatário.
Deputados e senadores da oposição, reunidos para decidir se aceitam a renúncia de Peña ou se avançam com um processo de impeachment, instaurado por suspeitas de crimes relacionados à falência do banco digital Ueno, insinuaram que o presidente pode tentar evadir a Justiça e traçaram paralelos com a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, após perder as eleições para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Quero que os cidadãos saibam: há duas saídas para Santiago Peña. A primeira tem a ver com o processo de impeachment: ele segue sendo presidente e, portanto, não pode sair do país sem autorização do Congresso. Quando terminar essa novela, Santiago Peña vai cumprir com a Justiça como qualquer cidadão”, afirmou Esperanza Martínez, do partido Frente Guasú.
“Se a renúncia de Santiago Peña for aceita hoje, vai sair daqui como senador vitalício sem que nada possa tocá-lo. Vai pegar o avião que quiser, fazer o que fez (Flávio) Bolsonaro e ser recebido por algum governo amigo, e tem vários, e vai zombar de nós. O que vamos dizer ao povo quando ele estiver no exterior? “, disse Martínez durante declaração no Congresso paraguaio.
Pressionado por jornalistas, o porta-voz Grance afirmou no grupo de WhatsApp da Presidência que “não tem nenhuma informação” quanto ao paradeiro de Peña, aumentando a incerteza institucional.
Ao menos dois outros senadores questionaram se Peña ainda segue no país durante a sessão extraordinária no Congresso para decidir a aceitação ou rejeição da renúncia. Em paralelo, senadores da oposição abriram uma queixa criminal contra Peña por crimes que incluem enriquecimento ilícito, tráfico de influência e gestão em benefício próprio, ao passo que a Procuradoria-Geral do Estado anunciou a abertura de uma nova investigação penal referente ao caso Ueno Bank.
Crise bancária
O processo foi instaurado nesta manhã, após a falência do banco digital Ueno, uma das maiores instituições financeiras paraguaias, que levou ao congelamento dos depósitos de cerca de 3 milhões de pessoas. A crise bancária mergulhou a nação sul-americana em uma turbulência financeira e social, com a renúncia do presidente do Banco Central e uma explosão de protestos na capital, Assunção.
O texto da acusação pedia a abertura de um processo de impeachment “por mau desempenho de suas funções no exercício do cargo”. Entre as acusações contra Peña está a de “conflito de interesses”, além de questionamentos sobre o aumento do seu patrimônio. O presidente paraguaio, que assumiu o cargo em 2023 para um mandato até 2028, possuía ações de um grupo que controlava o Ueno Bank, das quais se desvinculou em março de 2025. A oposição o acusa de tomar “decisões regulatórias supostamente favoráveis” ao banco digital e de concentrar recursos previdenciários na instituição, evocando ecos do escândalo Master no Brasil.
Foro privilegiado e investigações
Caso a renúncia de Peña seja aceita, ele poderia manter o foro privilegiado, uma vez que ex-presidentes no país tornam-se senadores vitalícios após o fim do mandato. A posição é prevista no Artigo 189 da Constituição do Paraguai, chamado “Das senadorias vitalícias” (De las senadurías vitalicias). De acordo com o texto, “os ex-presidentes da República, eleitos democraticamente, salvo se tiverem sido submetidos a julgamento político e considerados culpados”, viram senadores sem direito a voto.
Se o Senado decidir ir em frente com o impeachment e ele for condenado, perde o foro e pode enfrentar um processo regular na Justiça devido ao escândalo financeiro ligado ao fechamento do banco Ueno.
Fonte: Abril









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