A agricultura brasileira depende diretamente do clima — e é por isso que os eventos extremos, cada vez mais frequentes, impõem um grande esforço de adaptação ao setor. “A agricultura brasileira é uma indústria a céu aberto. Cada vez mais, temos trabalhado com tecnologias para a adaptação às mudanças climáticas e, consequentemente, para a mitigação de seus efeitos”, diz Silvia Massruhá, presidente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em entrevista ao programa VEJA+Verde. Pesquisadora com mais de três décadas dedicadas à empresa, ela comanda a estatal desde maio de 2023.
No centro dessa estratégia está a genética. A Embrapa combina o melhoramento tradicional com a biotecnologia e a edição gênica para desenvolver cultivares tolerantes a secas, doenças e pragas — e também animais mais resilientes. “Com a edição gênica, é como ajustar um artigo num editor de texto: você analisa o DNA, identifica os genes dos bezerros mais resilientes e monta uma genética”, explica.
Massruhá cita um experimento que produziu bezerros com pelagem mais curta e fina e melhor regulação da temperatura corporal, o que lhes dá maior tolerância ao calor — um resultado promissor para as cadeias de leite e corte. Na agricultura, a empresa desenvolveu um inoculante à base de uma bactéria extraída do mandacaru, que estimula o crescimento das raízes e permite às plantas absorver água em maior profundidade no solo.
A adaptação de cultivares a diferentes condições de solo e clima é uma importante frente de pesquisa da Embrapa. Foi assim que a soja, desenvolvida no Sul, expandiu-se para o Centro-Oeste — e é nesse caminho que avança o trigo tropical: a empresa vem validando cultivares para o calor do Cerrado, um esforço para reduzir a dependência brasileira da importação do grão. Frutíferas levadas ao semiárido, por sua vez, transformaram o Brasil em grande produtor e exportador de manga, uva, goiaba e melão.
O Sul segue forte em grãos e frutas de clima temperado, como maçã e uva. A regra geral, segundo Massruhá, é que não existe solução única: assim como os impactos climáticos diferem entre as regiões e os biomas brasileiros, as soluções técnicas também precisam ser validadas em cada um deles.
Um dos instrumentos mais consolidados dessa agenda é a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), sistema desenvolvido pela Embrapa há mais de 20 anos que combina, na mesma área, culturas como soja, milho e algodão, pastagens e, em muitos casos, o componente florestal. A proposta é oferecer “atividade econômica para o produtor rural 365 dias ao ano”, explica Massruhá, com duas ou três safras na mesma área e melhor aproveitamento do solo.
Segundo a presidente, o sistema já ocupa cerca de 20 milhões de hectares, com meta de chegar a 30 milhões até 2030 — e é apontado por ela como uma das alternativas para recuperar os 40 milhões de hectares de pastagens degradadas, foco do programa Caminho Verde Brasil, liderado pelo Ministério da Agricultura.
As tecnologias chegam ao produtor por meio de políticas públicas. É o caso do zoneamento agrícola de risco climático, política de mais de três décadas que a Embrapa remodelou nos últimos dez anos e que define janelas de plantio por município, cruzando mais de 30 anos de dados climáticos com informações de solo para orientar crédito e seguro rurais. Em 2024, após as enchentes no Rio Grande do Sul chamarem a atenção para o tema, a empresa lançou ainda os “níveis de manejo”, uma classificação de produtores em quatro patamares de adoção de práticas sustentáveis: um estudo com 260 produtores do Mato Grosso do Sul e do Paraná indicou que os que adotavam mais dessas práticas tinham lavouras com maior resiliência climática.
Perguntada sobre as dificuldades financeiras dos produtores — juros altos, insumos caros, com os fertilizantes pressionados pelas guerras, e seguro rural dificultado pelos riscos climáticos — e sobre seus efeitos na adoção das tecnologias de baixo carbono, Massruhá defende uma orientação que vá além da agronomia.
A Embrapa aposta na inteligência artificial para conectar suas bases de dados e levar conhecimento ao produtor, mas a presidente aponta uma lacuna que a extensão rural ainda precisa preencher. “A extensão, às vezes, fala do ponto de vista da produção, do ponto de vista agronômico, mas não traz uma orientação do ponto de vista financeiro”, diz. Para ela, o próximo passo é integrar ciência, assistência técnica, bancos e políticas públicas de capacitação, sobretudo para pequenos e médios produtores, de modo a reduzir custos e endividamento no campo.
O VEJA+Verde, conduzido pelo editor Diogo Schelp, traz empresários, personalidades, gestores públicos e especialistas para apresentar suas visões e soluções sobre um dos maiores desafios para a sobrevivência da humanidade: conciliar desenvolvimento econômico e social com preservação do meio ambiente. O programa pode ser assistido toda quinta-feira, às 17h, nos canais Samsung TV Plus canal 2059, LG Channels canal 126, TCL Channel 10031 e Roku 221, além de estar disponível no YouTube de VEJA.
Fonte: Abril











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